

O projeto Letras que Flutuam – Intervenção Urbana e Formação na COP 30 representa um marco na valorização e salvaguarda do letreiramento vernacular da Amazônia. Em um momento histórico onde Belém se consolida a partir do legado deixado pela conferência climática mundial, vestir a cidade com a sua verdadeira identidade visual torna-se um ato de afirmação cultural. Essa estética inconfundível, que há décadas colore os cascos das embarcações e conta as histórias de quem vive nas águas, agora reivindica o seu merecido espaço na paisagem urbana da capital paraense.
Nossa missão, no entanto, vai muito além de apenas manter viva a beleza dessas letras decorativas. Trata-se, fundamentalmente, de garantir autonomia econômica, respeito e protagonismo aos verdadeiros detentores desse saber: os mestres abridores de letras. São esses artistas, com seus traços firmes e sabedoria passada de geração em geração, os grandes guardiões de um ofício estritamente manual que traduz a alma, a fé e o cotidiano do povo ribeirinho em cada filete e sombreado.
Para que essa tradição não apenas sobreviva, mas prospere e se renove, é preciso estruturar uma rede de apoio que olhe tanto para o presente quanto para o futuro. A salvaguarda efetiva desse patrimônio imaterial exige que o mestre seja valorizado e reconhecido pelo seu trabalho no mercado, e que a juventude se enxergue nessa arte, garantindo que o pincel continue a desenhar a nossa história e não seja substituído por impressões industriais.
Com o objetivo central de perpetuar esse ofício, o projeto foi cuidadosamente estruturado em três frentes de ação. Essa jornada conecta a capacitação profissional dos artistas, a transmissão do saber ancestral para as novas gerações dentro do ambiente educacional e, por fim, a monumental apropriação do espaço público de Belém, transformando a cidade em uma vitrine permanente da cultura amazônica.
Oficina na Escola
A verdadeira salvaguarda acontece quando o ofício é transmitido adiante. A primeira etapa do projeto levou a arte das águas para dentro da sala de aula, promovendo uma oficina prática na Escola Jarbas Passarinho.
Nos dias 16 a 18 de dezembro de 2025, a ação contou com a maestria de dois grandes artistas, unidos pelos laços familiares e pelo pincel: Alessandro Abreu e Odir Abreu (pai e filho). Uma turma de 24 alunos foi dividida em dois grupos para uma imersão completa:



Gestão e Mercado: Aulas práticas sobre formação de preço, cálculo de custos fixos, logística e preparação para participação em feiras nacionais;
Formalização: Orientações sobre a formalização como MEI (Microempreendedor Individual), um passo fundamental para a segurança dos artistas;
Novas Superfícies: Exploração criativa para além da madeira e dos cascos de barcos, aplicando o letreiramento em objetos do cotidiano como cerâmica, palha e tecido.

Intervenção Urbana
O ápice do projeto foi a apropriação do espaço urbano. A estética ribeirinha subiu a terra firme para colorir os muros da Escola Estadual de Ensino Fundamental de Tempo Integral (EEEFTI) Pinto Marques, localizada na Av. Visconde de Souza Franco (doca), em Belém-PA.
O muro de 256 metros quadrados foi transformado em uma imensa galeria a céu aberto. Para este desafio monumental, reunimos um time de peso com 9 dos maiores mestres da nossa região:

Um patrimônio vivo construído a muitas mãos
O projeto “Letras que Flutuam – Intervenção Urbana e Formação na COP 30” prova que tradição e inovação caminham juntas. Ao capacitar quem faz a arte, ensinar a nova geração e ocupar o espaço público com o nosso traço manual, garantimos que a arte das águas tenha um futuro próspero e autossustentável.
Nada disso seria possível sem a força de uma rede de apoio estruturada. Agradecemos imensamente à política pública do Governo do Estado do Pará e à Secretaria de Cultura, que através da Lei de Incentivo Semear, viabilizam a cultura em nosso estado. Nosso profundo reconhecimento à Riachuelo, patrocinadora que acreditou no poder de transformação do nosso letreiramento.
E, acima de tudo, nossa reverência aos Abridores de Letras: os verdadeiros guardiões da identidade visual amazônica. O talento de vocês é o que dá cor à nossa história.
O Traço: Alessandro Abreu ensinou a técnica do letreiramento, os segredos do filete e do sombreado.
A Paisagem: Odir Abreu guiou os jovens na pintura dos cenários ribeirinhos que tradicionalmente acompanham as letras.
Após o aprendizado técnico e a decisão criativa conjunta, os alunos colocaram a mão na massa e executaram a pintura de um muro interno da escola, deixando um legado de cor, identidade e pertencimento para a comunidade escolar.


4º Encontro dos Abridores de Letras
Realizado nos dias 22, 23 e 24 de janeiro de 2026, no Hotel Amazônico Beira Rio, em Belém, o 4º Encontro dos Abridores de Letras reuniu 26 abridores de letras de diversas comunidades tradicionais ribeirinhas do Pará.
Com a parceria metodológica do coletivo Design Possível, a formação de 20 horas teve como foco central a gestão, a autonomia e a geração de renda. Durante os três dias, trocamos os pincéis por planilhas e debates, abordando temas vitais para a sustentabilidade do ofício:


- Idaias Dias de Freitas (Idaias)
- Joeldem Conceição dos Santos (Lili da Vigia)
- Simão Costa Sarraf (Ramito)
- Manuel Correa Pantoja (Soquete)
- Vanderson Brito Oliveira (Vanderson)
- Alessandro da Silva Abreu (Alessandro Bala)
- Donielson da Silva Leal (Kekel)
- Antonio Marcos Ribeiro Barata (Barata)
- Rosivaldo Gomes Correa (Colaça)
A intervenção mistura rios, ilhas, barcos e a fauna florestal com frases que dialogam com a temática da educação. É a identidade visual ribeirinha consolidada como um legado permanente da COP30 para a cidade.

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